COMUNITARISMO PLATÔNICO E A CRÍTICA POR ARISTÓTELES
Sergio A. Ribeiro “ Schelling”
Partindo do princípio de que as pessoas são diferentes e por isso devem ocupar lugares e funções diversas na pólis Platão imaginavam que o Estado e não a família deveria incumbir da educação do indivíduo. Para isso Platão propõe-se a estabelecer uma forma de comunitarismo em que é eliminada a propriedade privada[1] e a família[2] a fim de evitar a cobiça e os interesses decorrentes de laços afetivos, além de degenerencias das ligações inadequadas. O Estado orientaria através da eugenia[3] para evitar união conjugal entre desiguais, oferecendo as melhores condições para a reprodução e ao mesmo tempo promovendo a educação coletiva dos filhos que nascesse desta união. Para Platão a um mal para cidade, tornar-se múltipla em vez de una[4]. Para que a cidade contemple o bem deve torna-se apenas unitária. Uma vez que a propriedade privada gera o individualismo e o crescimento da cidade é qualitativo e não quantitativo para Platão.
Na polis platônica o indivíduo criava um tipo de identidade pública em que o particularismo representado através da propriedade privada como casamento, riquezas, família e educação dos filhos proporcionaria a dilaceração da unidade ética da pólis. No comunitarismo de Platão as expressões “isto é meu” e “isto não é meu” constitui um tipo de comportamento em que o indivíduo expressa uma pólis totalmente una. Nesta visão comunitarista da mesma forma que um membro do corpo machucado interfere em todo desenvolvimento do corpo assim é o indivíduo que não encarnou o princípio do comunitarismo, comprometendo toda a pólis. Estes conceitos de comunitarismo fica mais claro e evidente em 463c “ o que é dos amigos é como se fosse deles”. O que mostra que na sociedade platônica tudo seria comum que o indivíduo partilha de tudo desde pena até os prazeres 464 a.
A causa maior do bem da cidade está em ser comunidade. A privatização quebraria a hegemonia em que o cidadão deixaria de ser parte do corpo da pólis, para ser indivíduos da pólis, desfragmentado a unidade ética; pois o verdadeiro crescimento se dá na virtude do todo; e o crescimento mais correto e o crescimento que se dá na unidade e não na multiplicidade.
Na Política, Aristóteles vai construir sua teoria política enfatizando uma crítica a o comunitarismo platônico. Aristóteles compreende que realmente existe um comunitarismo na cidade, aliais os homens na cidade compartilham o mesmo território. No sistema de Aristóteles algumas coisas são partilhadas outras não a exemplo: mulheres, família e filhos, como são compartilhado em Platão. Para Aristóteles a comunidade é uma forma de vida e o bom viver na sua forma de vida mais perfeita. Sua crítica ao comunitarismo platônico inicia-se ao enfatizar que quanto mais unitária uma cidade se torna, com toda certeza deixara de ser cidade. Segundo Aristóteles a cidade ao contrário de Platão é um pluralidade de indivíduos, diferentes e não uma cidade de indivíduos autenticamente iguais. A crítica aristotélica sobre o comunitarismo platônico em tese é que Platão defende a “unidade e formalidade” ao passo que Aristóteles defende a “unidade e diversidade”, “pois uma sociedade não nasce de indivíduos idênticos” [5]
Assim a cidade é uma unidade diversificada, e que a auto-suficiência da cidade só é possível diante de uma diversidade de funções. Para Platão a idéia de uma cidade múltipla contribui para a dilaceração da ética. Em Aristóteles à medida que todos perdem a propriedade privada e o comunitarismo é levado as extremo ultrapassando a falta e excesso o indivíduo perde o zelo pela propriedade pública “Quanto mais uma coisa é comum a um maior numero, menos cuidado recebe”[6], pois o que é de todos por final não é de ninguém.
Em sua fundamentação teórica sobre a cidade de indivíduos autênticos e sua crítica platônica, Aristóteles conceitua a “Amizade”. A amizade é uma unidade bipolar em que se procura no outro a diferença. Já em Platão é uma unidade “Unipolar” em que vê no outro a igualdade. Através da amizade Aristóteles está privilegiando a particularidade a bipolaridade e a multiplicidade do indivíduo; algo que não existe na polis de Platão em que as diferenças são destruidoras. Na República de Platão a um assassinato em massa da particularidade, pois reduzir o outro a mim, é matá-lo. Mas a amizade para Aristóteles é uma relação unitária que não anula as diferenças uma vez que a amizade é uma relação de afirmação e propriedade.
[1] Platão. A República “ Com efeito, afirmamos que não deviam possuir casas próprias, nem terras, nem quaisquer bens” (...) 464c.
[2] Platão. A República. “Quanto a número de matrimônios, deixá-lo-emos a cargo dos governantes, para que mantenham o mais possível a mesma cifra de homens, tendo em linha de contra as guerras, doenças e outras perdas semelhantes, e a nossa cidade não se torne, na medida do possível, maior nem menor.460a.
[3] Platão. A República. “É preciso, de acordo com o que estabelecemos que os homens superiores se encontrem com as mulheres superiores o maior número de vezes possível, e inversamente, os inferiores, e que se crie a descendência daqueles (...) 459e”.
[4] Platão. A republica. “ Ora nós teremos algum mal maior para a cidade do que aquele que a dilacerar a torna-se múltipla, em vez de uma? Ou maior bem do que o que aproximar e tornar unitária? 462b (....)
[5] Aristóteles. A Política pg. 105
[6] Ibid, pg.107
