JURGEM MOLTMANN: A TEOLOGIA DA ESPERANÇA

 Giovani Pereira de Souza

 

I) Sua Vida: Jürgen Moltmann nasceu em 18 de abril de 1926 em Hamburgo. Iniciou seus estudos de teologia numa situação inusitada. Com dezesseis (1943) foi convocado pelo exército alemão onde teve, segundo ele mesmo, “uma carreira breve e sem glória”. Após seis meses na guerra, foi feito prisioneiro no campo de concentração de Northon-Camp, na Inglaterra. Ali se encontravam também alguns professores de teologia que ministravam lições aos seus companheiros; dentre eles, Jürgen Moltmann. Em 1948 retornou para Alemanha onde deu continuidade nos seus estudos na Universidade de Göttingen até 1952. De 1953 a 1958 exerceu atividades pastorais em Bremen. Sendo suas especialidades História dos Dogmas e Teologia Sistemática, iniciou sua docência em 1958 passando pela Escola Kirchliche Hochschule de Wuppertal, pela Universidade  de Bonn, Universidade de Tübingen, Due University - EUA (no caráter de professor visitante). “Depois de Karl Barth, Jürgen Moltmann é considerado o mais conhecido e influente teólogo reformado do século XX” (LEITH, 1997, p.234). 

II) Sua Teologia:Jürgen Moltmann foi o fundador principal da Teologia da Esperança cujo pensamento assemelha-se com as Teologias Feminista, Negra, Política, de Missão e Libertação. Em sua teologia ele aborda a escatologia, onde a esperança tem seu objetivo cumprido não na especulação, mas na praxis em meio a ação política e a revolução.  Segundo seu conceito, a esperança cristã é criativa: “Nós não somos só interpretes do futuro, mas já os colaboradores do futuro, cuja força, na esperança como na realização, é Deus” (MONDIN, 1980, p. 196).

1) A Redescoberta da Escatologia :No fim do séc XIX e princípio do séc XX, por meio de Johannes Weiss e Albert Schweitzer tem início a redescoberta do caráter escatológico da mensagem cristã. Substitui o “Jesus Ético” da teologia liberal pelo “Jesus Escatológico” que anunciava um Reino futuro e supramundano. Segundo Schwietzer, o Jesus histórico “é um Jesus escatológico que viveu na expectativa do fim do mundo e do advento sobrenatural do Reino de Deus” (GIBELLINI, 1998, p.279). Este Jesus possui uma mensagem paradoxal. Ela não é convincente, pois apresenta “algo de estranho” condicionado a apocalíptica do judaísmo tardio; mas é fascinante e eficaz, pois Jesus fala a partir de um mundo diferente do nosso. “Essa pregação nos arranca de nosso mundo, justamente por sua estranheza, prende-nos e nos leva a ser diferentes do mundo, para tornar-nos partícipes de sua paz” (GIBELLINI, 1998, p.279).

2) A Teologia da Esperança e a Filosofia da Esperança :Jürgen Moltmann inspirou-se na Filosofia da Esperança de Ernest Bloch. Aplicando à escatológica a categoria de futuro de Bloch, ele desejava uma renovação na teologia cristã e na praxis da comunidade cristã.

2.1) Filosofia da Esperança :Bloch pretendia a renovação da tradição marxista do ponto de vista do humanismo real. A filosofia de Bloch fundamenta-se na perscrutação da realidade (sujeito) para capturar tendências de futuro (predicado). É, portanto, uma filosofia voltada para o futuro, e justamente por isso, empenha-se em recuperar algo existente no passado. Ela conhece um futuro que vem a ser a partir da matéria, por isso mesmo só se torna conhecido por meio da extrapolação de tendências intrínsecas na realidade.

2.2) Teologia da Esperança :A Teologia da Esperança surgiu numa tentativa de revigorar a esperança cristã num sentido de práticas de esperança que a torne responsável pelo futuro da humanidade. Essa teologia de Jürgen Moltmann é uma “escatologia do futuro”. Na elaboração do seu pensamento ele concebe futuro de duas formas.

1a)Futurum: É o que surgirá a partir das tendências intrínsecas no presente; o que já existe extrapola para o futuro.

2a)Parusia: É aquilo que vem de forma anunciada.

Esses dois conceitos dentro da Teologia da Esperança se integram. Com isso, é possível dizer que a teologia de Jürgen Moltmann tem o objetivo de abrir ao presente o futuro da justiça, da vida, do Reino de Deus e da liberdade do homem calcado na esperança, que por sua vez, é garantida pela ressurreição de Cristo; o presente que extrapola para o futuro - o futuro advém do evento Cristo no presente.

Em suma, a Teologia da Esperança concebe um futuro que vem de Deus e que é conhecido por antecipação, isto é, no evento Cristo é antecipado o futuro da ressurreição e de vida que Deus doa à humanidade.

3)Teologia Escatológica Como Teologia da Esperança

Jürgen Moltmann é o teólogo que articula um projeto de teologia escatológica desenvolvida como doutrina da esperança e da praxis da esperança. Em 1964 Jürgen Moltmann publica sua Teologia da Esperança contendo como subtítulo Pesquisa Sobre os Fundamentos e Sobre as Implicações de uma Escatologia Cristã. Esta obra vem, segundo o teólogo holandês J. M. Jong, abalar os campos teológicos bartiano e bultimaniano. “A obra enunciava o principio teológico da primazia da esperança e traçava as linhas de uma cristologia escatológica e de uma eclesiologia messiânica” (GIBELLINI, 1998, p.282).

3.1)Primazia da Esperança :Jürgen Moltmann diz que “Na vida cristã, a prioridade pertence à fé, mas o primado, à esperança”. Em outras palavras, a esperança tem seu princípio na fé e dá sentido a ela. A fé em Cristo sem a esperança produz um conhecimento infrutífero, enquanto que a esperança sem a fé é utopia. “A esperança (...) é o ‘companheiro inseparável’ da fé e dá à fé o horizonte oniabrangente do futuro de Cristo” (GIBELLINI, 1998, p.282).

3.2)Cristologia Escatológica :O eixo central para todo cristão e para os teólogos é a figura de Cristo. Sua morte (cruz) e ressurreição ocupam lugar primordial em toda reflexão teológica. Por isso mesmo Jürgen Moltmann faz uso desses fatos do ministério de Cristo -  dando uma ênfase especial para a ressurreição - no desenvolvimento de seu pensamento.

A Teologia da Esperança baseia-se na Ressurreição do Cristo crucificado. A cruz, que representa os nossos sofrimentos, mostra a profundidade (coloca em foco a beleza e o gozo) da esperança cristã. A cruz tem sua importância, porém, na cristologia escatológica de Jürgen Moltmann, é um estado intermediário do caminho de Cristo.

Enquanto a cristologia tradicional está voltada para o passado, a cristologia de Jürgen Moltmann está voltada para um futuro em Cristo. Esse futuro de Cristo traz algo radicalmente novo sem estar separado da realidade presente, isto é, como um futuro “virtual”, ele exerce influência sobre o presente despertando esperanças. A esperança cristã espera do futuro de Cristo algo novo que ainda não ocorreu, espera que se cumpra em todos a justiça de Deus que foi prometida por meio de sua ressurreição (Kalr Barth). A ressurreição é a prefiguração do algo novo que há de vir.

Numa relação entre a ressurreição e a cruz vemos que a ressurreição caracteriza o crucificado como o Cristo e a sua paixão como evento de salvação. Ela não esvazia a cruz, mas a preenche de escatologia e significado. Não é possível dissociar a cruz da ressurreição uma vez que Cristo morreu por nós para nos tornar mortos  e participantes de sua nova vida de ressurreição e do seu futuro de vida eterna. Assim, para ressuscitar com Cristo devemos participar de sua paixão e de sua crucificação.

4) Eclesiologia segundo a obra “A Igreja na Força do Espírito”

Kirche in der Kraft des Geistes, Kaiser, Munique, 1975, traduzido para o italiano La Chiesa nella Forza dello Spirito, Bréscia, 1976. (A Igreja na Força do Espírito). Estudo da Igreja em sua natureza, suas funções, seus ministérios e suas relações com o mundo e com o Reino de Deus.

O objetivo da obra supra citada de Moltmann é mudar o quadro atual da Igreja, que está agindo como um supermercado onde se vai fazer compras relacionadas à vida religiosa. Sua intenção é promover uma comunidade em que o crente viva continuamente uma comunidade de fé, esperança e fraternidade. Vivendo assim, ela se tornará fermento de vida para todo o  mundo.

Segundo ele, a história da humanidade está mudando decisivamente. Acabou a época de nacionalismos e isolamentos como estruturas políticas estatais. Caminhamos, diz ele, “para uma comunidade mundial com estruturas políticas democráticas e supranacionais” (MONDIN, 1980, p. 206). Se a Igreja quiser acompanhar o tempo ela também precisa atualizar suas estruturas.

O autor propõe que a Igreja mude de Igreja clerical, ministerial e institucional em Igreja carismática em que cada indivíduo tome consciência do seu próprio ministério e compreenda o seu próprio carisma, para que o povo passe a ser sujeito na Igreja e não somente objeto de assistência religiosa.

Segundo o autor o governo desejado por Cristo se consuma numa comunidade carismática baseada na fraternidade. Essa forma de estrutura eclesial tem sua base nos fundadores do protestantismo de modo que tanto Lutero como Calvino já tinham essa concepção de que as estruturas humanas não podem exercer nenhuma função sacramental sobre alguém uma vez que isso é feito diretamente por Cristo.

Para Moltmann, a Igreja como realidade histórica possui um passado, um presente e um futuro. Ao passado pertence a história de Cristo, o fundador da Igreja, e a história da Trindade. Ao presente, pertence a história do Espírito Santo, que está com a comunidade dos pecadores justificados, libertados por Cristo, que passaram pela experiência da salvação e dão graças a Deus.

Com respeito ao futuro, Moltmann trabalhou com a relação entre Igreja e Reino de Deus. Nisso, o autor apresenta uma tese intermediária entre católicos e protestantes. Os primeiros compreendem uma identificação imediata entre um e outro e os seguintes, uma passagem transitória para o Reino de Deus escatológico.

A tese de Moltmann é que a Igreja é a antecipação, o sinal do Reino de Deus. Ele afirma que a Igreja, que existe e age na força do Espírito, ainda não é o Reino de Deus, mas certamente sua antecipação histórica. Dessa forma, o cristianismo ainda não é a nova humanidade mas, tendo o Espírito da nova criação, é a linha de frente na luta de resistência contra a condição cativa de morte da humanidade. Para ele, a Igreja é povo messiânico à serviço do Reino de Deus que está por vir.

Nas relações da Igreja com o mundo, especificamente entre o mundo político e econômico, Moltmann afirma que a Igreja, fundada por Cristo, se tornará em sua totalidade, existência e modo de vida, um fermento de destruição da idolatria política, pela sua dessacralização e democratização. Ele afirma que “como fermento crítico e destrutivo do fetichismo econômico, ela (a Igreja) difundirá um novo tipo de relações, marcadas pela liberdade na solidariedade” (MONDIN, 1980, p.203). Para Moltmann, a Igreja está em condições de fornecer uma orientação vital para a ação do cristão na política, economia e cultura.

A eclesiologia de Moltmann está intrinsecamente unido e ligada à cristologia. Ela precisa ser desenvolvida a partir da cristologia como sua conseqüência e como correspondência a ela.

Cristo é o fundador da Igreja, de modo que o fundamento de tudo o que se refere à Igreja não é a sociologia, nem a política, nem a economia, nem a cultura, mas sim Jesus Cristo. A vida da Igreja e do cristão deve ser inteiramente regulada por Cristo e portanto, pela fé e pela experiência vital que a fé em Cristo suscita ao crente. Mas o autor mostra que a Igreja não pode ser entendida como uma simples continuação ou prolongamento dele, sim como antecipação da pessoa escatológica de Cristo.

Para a questão da salvação fora da Igreja, Moltmann distingue dois horizontes: O horizonte eclesial que abrange todos aqueles que abraçam a fé em Jesus e o horizonte total que abrange Israel, os seguidores das religiões não-cristãs e o mundo inteiro. Para ele, “Cristo veio e se sacrificou para reconciliar o mundo inteiro” (MONDIN, 1980, p. 203). A Igreja possui sua vocação específica. Ela tem a missão da esperança no mundo, a reconciliação dos pagãos ao futuro de Deus para que se tornem livres.

No que se refere à questão soteriológica das religiões não-cristãs, Moltmann se mostrou enigmático, deixando claro, contudo, que a Igreja deve manter com estas um diálogo franco e um confronto aberto sem nada sacrificar o que elas têm de bom, verdadeiro e belo. Isso é válido também para as diferentes culturas.

Com respeito ao sacramentos, Moltmann afirma que pedobatismo já passou de época, devendo ser substituído pelo batismo vocacional. Ele afirma que “para quem o recebe e para os membros da comunidade, o batismo deve significar, além da graça, também a vontade de viver na libertação de Cristo e de colocar-se a serviço da reconciliação e da libertação do mundo inteiro” (MONDIN, 1980, p.204).

Quanto à ceia, devido às suas tendências carismática, antiinstitucional e antiministerial, Moltmann nega a existência de um ministério especial para a sua administração. Rejeita, também, como absurdo a exigência de confissão antes da ceia. Para ele, ceia é celebração de júbilo e a confissão apenas tortura a consciência do cristão, enchendo-a de angústia.

Referente aos ministérios e funções da Igreja, o estudo é elaborado sob um contexto pneumatológico, isto é, os ministérios e as funções são situados no interior do movimento do Espírito Santo.

Para Moltmann, todos os crentes receberam os dons do Espírito e são, portanto, titulares do ministério. Os que considera essenciais para a comunidade são o kerygma, a koinonia e a diakonia. Assim, os mandatos principais para a comunidade são o de anunciar o Evangelho, o de batizar e celebrar a ceia, o de presidir as assembléias comunitárias e o de exercer uma atividade diaconal.

Ele vê a necessidade para a comunidade de pregadores, presbíteros e diáconos, mas não vê esses ministérios ou outros como decorrentes da atividade democrática dentro da igreja; é preciso que eles sejam um dom carismático atribuído à pessoa.

Bibliografia

GIBELLINI, R., A Teologia do Século XX, trad. João Peixoto Neto, São Paulo: Edições Loyola, 1998.

MONDIN, Batista. Os Grandes Teólogos do Século Vinte. Vol. 2, 2ª ed. São Paulo: Edições Paulinas, 1980.

LEITH, J.H., A Tradição Reformada, Trad. Eduardo Galasso Faria e Gersom Correia de Lacerda, São Paulo: Pendão Real, 1996.

 

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