O BEM POLÍTICO E O BEM INDÍVIDUAL EM ARISTÓTELES.

 

 Sergio A. Ribeiro “ Schelling”

 

A  possibilidade  de  entendimento da relação entre bem individual e bem político inicia  primeiramente na compreensão da visão antropológica  de Aristóteles do  homem político. O homem aristotélico pensava a partir de seu mundo que era a polis a qual estava inserido.  A construção da polis estava intrinsecamente ligada ao “Ethos”[1].  Ao analisar a polis nota-se que os gregos tinham um jeito próprio de ser, um modo próprio de organizar e pensar que regia  as suas atitudes e os seus modos de agirem.  Um povo costuma  ter um modo próprio de organizar  a sua vida, sua história  ou cultura; o que possibilita  o modo ou o jeito próprio  habitual  de morar e habitar o mundo. Organizar a vida é o que se chama de ethos.Do ethos em ação  surgia os valores as normas e os costumes da polis grega. Assim o ethos era  a base moral do indivíduo. Desta forma compreendemos que o ethos é aquilo que da o norte que orienta os atos dos indivíduos.

 

 Mas como chegar a tal orientação? Para Aristóteles existe algo da natureza humana, este algo é a “palavra”[2]. O homem é um ser lingüístico; para qual finalidade? Para discernir o que é justo ou injusto, o bom  o mal. Através deste poder lingüístico o homem opta em agir de maneira lógica. Este agir lógico é a virtude. Assim o bem individual se dá através de um agir virtuoso na observância do ethos. Ser  virtuoso é agir de acordo com a regra correta, ou seja;  é agir   de modo racional, o agir-bem e viver-bem; é agir e viver  de acordo com a racionalidade  como enfatiza Aristóteles “ A lei é a razão  não afetada pelo desejo” Ético a Nicomâco 1287ª.  

 

Para Aristóteles o bem individual é resultante da forma de vida  preferida   por ele  que é a vida contemplativa, pois supostamente é a que realizaria  a função própria do ser humano. Não há dúvida, entretanto de que o bem individual  é compreendido  como  uma atividade resultante da virtude.  Nesta perspectiva  a virtude é o produto  da educação e do cultivo de bons hábitos (Ethos). Um Estado virtuoso é uma espécie de segunda natureza cultivada pelo desempenho  continuo  dos bons hábitos. Assim considera  Aristóteles  que a virtude  não é mera disposição psicológica, mas um estado  do caráter do indivíduo, um modo de ser.    

 

Desta forma compreende-se melhor o porquê Aristóteles enfatiza que o homem é um animal político, pois sem a cidade o homem é apenas um homem em impotência. O homem se constrói como um ser social na cidade (comunidade política) sem ela o homem  é “sem família, sem lei e sem lar”[3]. Por esta causa não a virtude e nem cidade sem o ethos, e não há bem individual sem o ethos e a virtude.  Pois sem a cidade o homem é um bicho ou um demiurgo, ou seja;  um deus que faz as coisas ao seu modo. Nas na cidade o homem deve  agir virtuosamente,  pois é a virtude que regula as relações  entre os membros da cidade a qual a comunidade  possa existir.

 

 O bem individual como já relatamos é o individuo ético e virtuoso. Mas o bem político o que seria?  A reflexão aristotélica sobre a política não se separa da ética, pois a vida individual está imbricada na vida comunitária. Compreende-se  que para Aristóteles que a finalidade da ação ética é a felicidade do indivíduo. A  política tem a  finalidade  levar a cidade  ao bem político que  seria a felicidade[4]. No sistema aristotélico  assinala  o caráter indissociável entre ético e político. A ética  como já enfatizado trata das condições  que nos permitem alcançar à felicidade individual, ao passo que a política  trata do  bem político a  felicidade pública, que é mais  nobre  do que a primeira porque determina a própria existência. O bem é a finalidade da política  e a política é o bem maior sobre todos os outros.  O bem político assegura a felicidade da cidade  por isso a  cidade  existe por natureza para assegurar a vida boa[5].  Mas essa vida boa na cidade só e efetivada pela ética, pois a  ética é a realização da política. Por isso para que haja o bem político é necessário que os indivíduos vivam da melhor forma possível; na visão Aristotélica é impossível  ser  prospero sem agir  bem, por isso nem os homens e nem a cidade agem  bem sem qualidades morais.

 

 Em síntese nas definições aristotélicas a causa final  do homem é  a felicidade. Por isso a felicidade é o telos do homem. E este  telos só pode ser alcançada  pela prática  das ações  éticas e políticas.Estas ações humana  da ao indivíduos aquilo que é próprio  de sua essência, ou seja o homem já carrega em si  os elementos  da felicidade e através da ação ética e política ele alcança aquilo que  é próprio dele. Mas  para que haja um bem político deve haver o bem individual que é o agir ético e virtuoso. Esse bem individual quando encarnado em todos os indivíduos materializas-se através  da ação política o bem político, ou seja,  à  felicidade. O  bem político é maior que o bem individual, pois o todo é maior do que as partes  transformando a polis em uma grande entidade, ou seja; em uma comunidade política. Entre o bem individual e o bem político a uma relação de finalidade em que o bem individual e o bem político é um meio para alcançar  à felicidade que é a finalidade de todas as ações efetivada na comunidade  política.

 

 

[1] A palavra  ethos vem do grego. Quando  ela é escrita  em grego com épsilon, significa “costume”. No entanto, quando a palavra  ethos é escrita com eta, tem o sentido de “caráter” . Vemos que o vocábulo ethos não teve um “único significado. “Ele pode tanto significar  “residência”, morada, “ lugar” onde se vive quanto aponta para o nosso modo de ser no mundo ou caráter. ROSS, David. Aristóteles,.Dom Quixote. 1987.

[2] (...) o homem, de   entre todos os seres vivos, o que possui a palavra (...) o discurso serve para  tornar  claro o útil e o prejudicial e,  por conseguinte, o justo e o injusto. Aristóteles. A Política. Pg. 55

[3] Aristóteles. A Política. pg. 35.

[4] “ O bem  é a finalidade da vida política”Aristóteles. Ética a Nicômaco. pg.44.

[5] (“...)  a cidade  subsiste para assegurar a vida boa”. Aristóteles. A Política. pg.53.

 

 

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