O ESPÍRITO CAPITALISTA, DESIGUALDADE SOCIAL E A ÉTICA SOLIDÁRIA DA IGREJA

 Sergyo A. Ribeiro

 A  frase “ O Homem é um produto do meio[1]” é usada e abusada nos dias de hoje. Sem dúvida, somos, em parte, aquilo que a sociedade faz de nós. O entendimento de grande parte de nossa biografia depende da compreensão da sociedade em que vivemos. Nascemos numa determinada época em uns dados pais; mais tarde recebemos um determinando tipo de educação; o nosso trabalho dependerá da situação econômica  dos nossos pais. Como se vê inúmeros aspectos  da nossa vida depende  da situação da sociedade. No entanto, isso significa  que somos totalmente  determinados pelo meio? Sabemos que não. Através do conhecimento, do trabalho e de tantas outras ações é possível mudar a vida pessoal de uma sociedade. Mas, para isso, é necessário sempre se lembrar da importância dos grupos sociais que homens formam  desde o seu aparecimento sobre  face da terra. Para entender  os processos históricos de qualquer sociedade. É fundamental começar pelos estudos de organizações econômicas, pois através delas é que os homens satisfazem as suas necessidades mais elementares. A economia constitui-se a base da vida e determina em parte a organização social e política, bem como a moral, cultura e religião.

 

Mas também é necessário lembrar  que, em certos momentos históricos, o econômico pode não ser o mais importante, e aspectos como a religião pode ter um papel decisivo. Um bom exemplo disso talvez seja o Irã. Ali, a revolução liderada pelo Ayatolah Khomeini explica-se principalmente pela influencia da religião islâmica na  sociedade, é o cristianismo não pode ser igual?    Embora esse assunto seja pouco comentado e pouco esclarecido, existem várias formas de capitalismo em todo o mundo. O comércio,  dinheiro,  mercantilismo,  lucro,  trabalho assalariado, etc., sempre existiram desde a antigüidade. No entanto cada povo usa as diferentes técnicas comercias e produtivas de acordo com sua conduta ética e moral. Um povo que recebe uma educação moralista e cívica (patriótica, respeitosa), dá ênfase à honestidade e à justiça na hora de elaborar suas regras econômicas. Já um povo que recebe uma educação tendenciosa, leviana e pouco respeitadora, dá ênfase aos jeitinhos, à exploração e à ganância.

 

Atualmente, um do capitalismo mais produtivos do mundo é o capitalismo praticado nos países protestantes. Lá, as taxas de juros são baixas, os salários são altos, o nível de emprego é bom e a economia é estável. (Exemplo de países protestantes: Suécia, Inglaterra, Dinamarca, Estados Unidos, Escócia, Finlândia, Noruega, Islândia etc...). Onde quer que esteja o Capitalismo Protestante é totalmente contrário ao trabalho-escravo, inclusive, ao escravismo de Estado (mais conhecido como Comunismo). No Comunismo soviético, por exemplo, todos trabalhavam para o governo em troca unicamente do sustento básico (ração alimentícia e teto para morar). Além disso, não tinham nenhum tipo de liberdade: não podiam sair do país, ter fé em Deus e nem almejar qualquer tipo de lucro. Aqui, no Brasil, utilizamos o capitalismo pagão (selvagem); o próprio governo impõe juros absurdos, preços abusivos e salário mínimo vergonhoso. No entanto, a maioria de seus integrantes recebe salário de marajá. De fato, o Brasil adotou algumas práticas capitalistas, mas não adotou a ética protestante. (Falo da conduta moral e social, e não das práticas religiosas). As pesquisas de Max Weber, relatadas em seu livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, demonstram que, a ética bíblica, praticada com mais ênfase pelos povos protestantes, produz um capitalismo justo e próspero. Capitalismo este que o brasileiro ainda não conhece adequadamente. O brasileiro só conhece o que podemos chamar de capitalismo pagão - sem ética e sem justiça.

 

A Estatística  revela que o Brasil através de seu sistema capitalista sócio-econômico é o segundo pais do mundo  no crescimento da desigualdade sociais, ou seja, quem é rico fica mais rico, e quem é pobre fica mais pobre. A onde existe pobreza deve ter missão integral. Mas a teologia da América Latina  como enfatizou René Padilha , “ainda é muito espiritualizada ” , Leonardo Boff enfatiza “quanto mais metafísicos formos mais difícil será  a manifestação Reino de Deus”  [2]. C.S. Lewis enfatiza: “Não adiante tentar ser mais espiritual do que Deus. Deus nunca pensou  em fazer do homem  uma criatura estritamente espiritual. Essa é a razão pela qual Ele utiliza coisas materiais, como o pão e o vinho, para colocar  a nova vida  dentro de nos. Isso pode parecer tanto rude e não espiritual. O Deus não parece: Ele inventou a comida. Deus gosta da matéria. Ele a criou” [3]. A centralidade do Ética  social  esta justamente na prática da solidariedade, fazer justiça para aqueles que não tem, trazer para o presente o Reino de Deus, como enfatiza Oscar Kumam, Leonardo Boff,  Molthamm e René Padinha que Reino de Deus e  o “já e o ainda não”. Mas para trazer o Reino de Deus para o presente;  para que o mesmo posa contribuir para a  sociedade é preciso desprender-se um pouco do discurso  teológico/eclesiástico do “celeste por vir” de uma graça apenas metafísica e transcendental entre “Eu e Deus ”, para uma eclesilogia  contextual da  graça relacional entre “Eu e o Tu”. Mas  por herança puritana;   da desfraguimentação do ser humano e a demonizarão da matéria, o ser humano foi desfragmentado sendo   valorizando a penas o aspecto espiritual,  onde o que interessa é apenas o pós-morte,  desvalorizando o ser humano como ser existencial, social e estrutural.

 

A integralidade da missão não é um mandamento novo; isso não nasceu com Jesus, vem deste o Antigo Testamento através da Torá. Através da colocação de Neubaruer, entende-se que a “Torá  está voltada para o uso do termo “hanan” , visto que as leis contidas  visa  uma intervenção nas relações sociais , como afirma Crusemann: “Temos  na   Torá/Lei e a manifestação concreta do evangelho e do Reino de Deus. A lei e a expressão concreta da graça de Deus para os mais fracos”[4]. Em relação ao contexto civil  de Israel, há um conflito de interesse entre senhores e pessoas marginalizadas. Percebe-se  que nas formulações  das leis, há  dois destinatários  concretos apresentados como  “tu”,  esse “tu” é o sujeito da lei. Ainda no  contexto  da Lei temos o que podemos chamar de “objeto da lei”, isto é    pessoa  forasteira, órfão, viúvas  pobres, são vistas como pessoas e grupos que devem receber o valor e a proteção da lei especifica. As leis de Deus tinham como meta promover o bem estar  e igualdade social.  Visto que na bíblia   temos um Deus  que  julga, condena, permite juízo, quando  existem oprimidos e injustiçados. A centralidade da mensagem dos profetas é promover a justiça, como o caso do profeta Amos, “o projeta social”. [5]

 

O contexto social, econômico e capitalista a qual analisaremos desde o descobrimento do Brasil mostrará um sistema econômico que sempre foi injusto com o mais fraco, mostrara também  uma realidade, um quadro de pobreza é miséria.  A missiologia diz que igreja é um agente de transformação da realidade”, mas para que haja realmente uma transformação  a igreja deve se posicionar contra a miséria e injustiças. É verdade que a Igreja não é uma instituição político-partidária que deva defender qualquer bandeira política. É mais que isso. Ela é uma instituição divina suprapartidária. Por isso mesmo, tem o dever ético e moral de ser mais justa do que qualquer governo ou partido político pretenda ser. Conforme salientou Jorge GOULART (1941, p. 229), a Igreja "não prega uma forma de governo, mas cria uma consciência democrática, à luz dos conceitos de liberdade, de dignidade humana, de respeito ao próximo e, sobretudo, de amor a Deus e à humanidade".  Um dos grandes mal do contexto da América Latina, esta na falta de uma consciência política  e social da igreja para denunciar  um sistema econômico injusto  e opressor. Por último  temos a  teologia da prosperidade,  uma teologia desumana  e egoísta,  que só veio a  dar credito a teoria de Max Weber  “ A ética protestante e o espirito capitalista” .  A Teologia da América Latina  e a Teologia da Prosperidade, ambas são contemporâneas em seu surgimento, mas a Teologia da América Latina  foi ridicularizada com o passar do tempo, porque denunciava  a omissão da igreja é do governo. Ao passo que a Teologia da Prosperidade  cresceu   por  ser uma teologia que não dá, mas recebe, também por ser uma teologia que não tira o indivíduo da nossa zona de conforto. “A igreja que vive para si, morrera por ela mesma” Wilhiam Tempho. Sem uma igreja integral não há missão integral. Um dos capítulos mais pobres da missão integral está nas paginas da eclesiologia, em 2002 foram publicados 7400 títulos de livros, sendo que apenas 41 têm o termo com igreja e apenas dois fala da eclesiologia.

 

O Evangelho da América Latina como afirmou René Padilha, em sua  palestra “ novas Igrejas para uma nova Realidade” é um Evangelho totalmente individualista e espiritualizado. O sistema eclesiástico que tem o Evangelho espiritualista e metafísico, entre EU+DEUS, terá muita dificuldade de formar uma comunidade que reflete a obra entre o EU+TU. No Antigo Testamento o propósito de Deus foi criar uma comunidade que resplandecia a sua gloria  através de atos. A igreja não e uma comunidade individualista, mas sim coletiva que encarna o Reino de Deus como algo concreto real e presente em nossa realidade. O contexto da América Latina trata de uma realidade triste, envolta a um sistema capitalista opressor o qual contribui para a pobreza, subdesenvolvimento, corrupção,  opressão e injustiça para com o mais fraco, mas ao mesmo tempo  proporciona a prática de uma Missão Integral. Se quisermos  empactar a sociedade com a mensagem do Evangelho deveu  viver a integralidade da missão, uma missão que não vê o homem desfragmentado corpo, alma e espirito, mas que vê o homem como um todo, uma teologia que não aceita a situação deste mundo apenas  como cumprimento de uma profecia apocalíptica, mas que deseja transformar a realidade, principalmente para aqueles que estão sendo vitima de um sistema opressor. Jesus disse “que veio anunciar o evangelho aos pobres, oprimidos  e algemados”. Os judeus esperavam um Messias que iriam restabelecer o trono de Davi a força esperava um Messias político.

 

Jesus anunciou às boas novas as pobres, para a escoria da sociedade, desprezada pelo sistema e pela as estruturas. A  primeira área geográfica do ministério de Jesus, de acordo com o relato de Lucas, é a província da Galiléia. A Galiléia dos gentios era conhecida como círculo dos povos, numa provável referência a uma área que era circulada, política e geograficamente, por muitas cidades uma região, também chamada de Galiléia dos gentios. Por séculos, a província da Galiléia esteve sob os domínios de diferentes mãos, regimes e sistemas.  A Galiléia era uma terra de conflitos, privada de sua própria independência e autonomia. No período asmoneu, o povo da região norte não foi considerado  como sendo  uma parte do povo Judeu. Por esta razão, ela começou a ser chamada de “Galiléia dos gentios” (Mt 4:15)[6]. Na região da Galiléia se encontrava  o maior número de pessoas injustiçadas, oprimidas, endividados, leprosos e pobres. Mateus, no capítulo 4,  ao se referir ao início do ministério de Jesus na Galiléia, ele  uso de um provérbio  popular, quando relata, “...e aos que estavam nas regiões da sombra e da morte raiou-se uma luz”(Mt 4:17) Os evangelhos sinópticos mostram que Jesus iniciou seu ministério na periferia, o anúncio do Reino de Deus acontece da periferia-Galiléia para o centro-Jerusalém. O ministério de Jesus está dividido em três partes: em primeiro lugar Galiléia; em segundo  Samaria  Judéia; e em terceiro Jerusalém. 

 

Em Lucas 4:31–9:51 se encontra a narrativa de curas, milagres, aos necessitados, excluídos, pobres e oprimidos da periferia; na Galiléia Jesus realiza a teologia prática, pois para aqueles que se encontravam nas regiões da sombra e da morte raiou uma luz. A inauguração do ministério de Jesus já demostra um Jesus cheio de graça, visto que ele se envolve primeiramente com os necessitados. No decorrer da narrativa dos sinópticos, Jesus sobe da Galiléia para Jerusalém, e neste percurso vem curando, expulsando os demônios, perdoando, alimentando o povo e dando esperança. Precisamos de uma comunidade que encarna o comportamento de Cristo. O Evangelho atual que faz sucesso, e um evangelho político, o qual vem de cima, dando poder aos indivíduos onde não vivem o Reino de Deus encarando em Cristo, mas para seu auto se beneficio, onde o Evangelho assumiu um caráter do catolicismo Romano “contantinopolitnao”.A teologia do Novo Testamento é sempre uma teologia trinitariana como afirma Leonardo Boff, onde existe uma  relação de entrega entre a trindade, onde a igreja deve ser igual.  Para que a igreja possa transformar  a realidade ele deve ser transformada, pois a igreja que não  transforma deve ser questionada  igreja transformada esta sempre transformando” . Uma igreja transformada é uma igreja contextualizada. Como ser igreja diante de um contexto pós-moderno, individualista, niilista, teologia da prosperidade apologia ao dinheiro-amamon ? Deve ser apenas uma igreja cristológica  que encarna o ser de Cristo em sua vida e comunidade.  A vida e morte de Jesus não é apenas um fato histórico ou teológico, mas uma resposta para uma sociedade maligna, portadora de um sistema capitalista opressor, desigual e injusto. Por isso a igreja deve lutar, denunciar e ser uma voz profética contra todo o tipo de opressão e injustiça e desigualdade social. Viva a Missão Integral!!!!!!!!!

 

 

BIBLIOGRAFIA

CRUSEMANN. Frank. Torá: Teologia e História social da lei do Antigo Testamento. São Leopoldo Sinodal, 2000.

REINER, H. Tempos de graça: O jubileu e as tradições jubilares na Bíblia. Petropolis: Editora Vozes, 1999.

BOFF, L. Graça Libertadora do Mundo. Petropólis: Ed. Vozes, 1976.

GUTIËRREZ, Gustavo. A Força Histórica dos Pobres. Petrópolis: Ed .Vozes, 1981.

ALVES, Rubens.  Da Esperança. Campinas. São Paulo: Papirus. 1987 .

BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador. Rio de Janeiro Ed. Petrópolis. Ed. Vozes, 1980.

BOFF. Leonardo. Teologia  do Cativeiro  e da Libertação.São Paulo:Circulo do Livro Petrópolis:Ed. Vozes. 1998.

PIXLEY, Jorge e Clodovis Boff. Opção Pelos pobres. Petrópolis: RJ. Vozes, 1986.

PIXLRY, George.  Êxodo. São Paulo. São Paulo: Ed. Paulinas, 1987.

SUNG M. Jung. O capitalismo e a morte dos pobres. São Paulo: Ed. Paulinas, 1989.

WEBER M. A Ética do Protestantismo e o  Espírito Capitalista. São Paulo: Astes,1986.

 

 

 

 

 

 



[1] CAMPOS Raimundo. História da América. São Paulo; Ed. Atual. pg, 02,1992.

[2] BOFF,L. Graça transformadora do mundo. São Paulo: Vozes. 1982

[3] LEWIS.S.C. A essência do cristianismo autêntico. São Paulo:Ed. ABU. 1964

[4] CRUSEMANN, F. Torá:  Teologia e História social da lei do Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2000.

[5] REINER,H. Tempos de graça: O jubileu e as tradições jubilares na Bíblia. Petropolis: Editora Vozes, 1999.

 

 

[6]  BARROS, J.H. De cidade em Cidade. Londrina: Ed. Descoberta,  2003.

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