TEOLOGIA DA GRAÇA VI


A GRAÇA DIVINA NOS PRIMEIROS SÉCULOS DA IGREJA CRISTÃOS

  

 Sergio A. Ribeiro “ Schelling”

 

A graça e o contexto religioso helenístico

 O surgimento e o desenvolvimento do cristianismo se dão dentro de um contexto cultural e religioso denominado helenista, o qual demarcará vários choques, dentre eles, a perspectiva monoteísta e o politeísta. De um lado o judaísmo totalmente monoteísta, do outro lado  a religião romana e as religiões gregas politeístas. O contexto religioso em que surge o cristianismo conspira  problemas. O primeiro problema  é com o judaísmo, que converge a um sistema  monoteísmo, o qual tem dificuldade de entender o discurso de três pessoas: Pai, Filho, e Espírito Santo. O segundo problema  do cristianismo  está relacionado à religiosidade politeísta dos gregos e romanos. O cristianismo tinha como base o discurso de um único Deus, monoteísta, com uma diferença, que está  representada na três pessoas Pai, Filho e Espírito Santo. Nota-se que o cristianismo fica entre dois extremos, em uma situação extremamente delicada. O terceiro problema é com a graça, o monoteísta e politeísta tinham em suas cosmovisão religiosa, os conceitos de praticar atos para ser agraciados com dádivas pelos seus deuses. “Os  cristãos tinham que enfrentar problemas vindos de  fora da   igreja, originários de três vertentes: do judaísmo tradicional, da cultura grega politeísta ou a filosofia da gnose. Até o  século II o assunto era proclamado, mas não era refletido, apenas no início do século II  é  que começam a  surgir os teólogos racionais, os  quais começam a dialogar a dialética da fé. Este diálogo teve início porque surgiram  muitas dúvidas, muitas  heresias sobre o cristianismo. Os movimentos começaram a crescer de forma assustadora que exigiram uma resposta.

O Novo Testamento tem dois eventos clássicos onde a graça tem dificuldade para ser entendida. O primeiro está relacionado com a igreja de Jerusalém (At :15) e com a igreja da Galácia, onde o apóstolo Paulo enfrenta sérios problemas. Muitos dos primeiros cristãos, por serem judeus, continuarão a viver segundo os moldes judaicos, não romperão totalmente com  as práticas do judaísmo, principalmente a  freqüência  as sinagogas e ao templo em Jerusalém; oferecendo holocausto, observando rituais e o sistema da legislação mosaica, mantendo-se socialmente distantes dos gentios. A adesão dos gentios à fé cristã  forçou a Igreja considerar diversas e importantes questões. Como deveriam os cristãos  gentios  ser obrigados a submeter-se  á circuncisão ao modo judaico de vida, conforme era exigida dos prosélitos gentios  que entravam para o Judaísmo? Para o caso  daqueles cristãos  que não estavam dispostos a tornarem-se totalmente judeus, deveria haver uma cidadania de segunda classe no seio da igreja como sucedia no caso dos gentios, tementes a Deus, dentro do judaísmo ?Um outro questionamento de importância, era na questão de  torna-se cristão somente pela fé, ou  a fé mais as práticas do judaísmo? “As respostas dadas pelos judaizantes, incluindo judeus gentios que  tinham se tornado judeu insistia sobre os moldes judaicos como algo necessário para os cristãos. Contra isto  surgiu o apóstolo Paulo, através de sua Epístola aos Galátas, da região de Galácia, onde a ação judaizante tanto prejudicou a igreja nascente ali”.As práticas dos judaizantes ao colocarem certas observações do judaísmo dentro da igreja, anulavam a graça, pois esta é um dom gratuito de Deus (Efésio 2:8) e um favor não merecido de Deus, se algo é feito para merecer a salvação, logo a graça não é graça, além disso a graça soteriológica de  Cristo  é suficiente para  salvar. Paulo mostra que o Evangelho anuncia a graça da  salvação pela fé  (Gl 3.11), e que a fé em Cristo conduz a uma vida cheia do Espírito Santo, uma vida de vitória sobre  o pecado, o mundo e a carne, enquanto o esforço humano para guardar a lei, para obter salvação, conduz a derrota.A salvação unicamente pela graça  era algo que inquietava o sistema religioso da época . Os oponentes do apóstolo Paulo, porém, nunca aceitaram essa tese. A idéia paulina era  revolucionária, produto de uma revelação superior, não tendo sido aceita pelos religiosos antigos, principalmente pela igreja judaica, conforme vemos no décimo quinto capítulo de Atos.

 

A graça na teologia paulina

         É importante entender que para Paulo por trás de todo o processo de salvação está sempre a iniciativa de Deus. Nenhuma outra palavra expressa sua teologia tão claramente sobre este ponto  como a graça-charis. “ Pois esta resumia não só o evento épocal de Cristo, mas também a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, graça que também realizou a irrupção vital na experiência humana individual  (graça recebida, dada, aceita)”. Em resumo, charis está ligada a ágape (amor), centro da teologia de Paulo. Mais que quaisquer outras, estas duas palavras graça e amor, juntas resumem e caracterizam de maneira muito clara toda a sua teologia, Dunn enfatiza: O que interessa aqui e o contraste entre a tradução destes termos na LXX e o uso paulino o de Charis. Na LXX charis é quase sempre a tradução de hen, enquanto eleos “misericórdia” é a tradução usual de Hesed, termo mais comum e mais rico. Mas em Paulo a posição é invertida, sendo eleos usado apenas quatro vezes nas cartas paulinas incontroversas. Parece, portanto, que Paulo preferia charis, presumivelmente, porque no seu uso ele podia combinar os aspectos mais positivos das duas palavras hebraicas: charis denota, assim poderíamos dizer, a unilateralidade de hen e o compromisso duradouro de Hesed.

Diante desse duplo pano-de-fundo, diversos aspectos da teologia paulina da graça exigem comentários. A primeira idéia é a bondade espontânea da doação generosa. Como na teologia do hesed do Israel antigo, Paulo fundamentava seu entendimento das relações divino-humanas na convicção de que o plano de Deus  para a humanidade era o de iniciativa generosa  e constante fidelidade do começo até o fim. “Uma característica notável  do uso paulino é que os termos dorea (presente) e dorean (de presente imerecidamente) usualmente  estão ligados com o conceito de charis.A graça de Deus é sempre presente. Assim, a frase verbal mais comum com charis é  graça dada (por Deus)”. O segundo aspecto do conceito da graça na teologia paulina está relacionado com a ação. Denotava não simplesmente uma atitude ou disposição, mas também o ato que expressava a atitude. Para Paulo a “graça” era  um conceito dinâmico, a poderosa ação de Deus, coincidindo com os conceitos de “poder” e “Espirito” no uso de Paulo. Conforme indicam com suficiente clareza as referencias já pesquisadas sobre a “graça” descreve e experiência dinâmica de der tomado e “coberto de graça por Deus”. Por exemplo, (2 Cor 12.9 ) “Basta-te a minha graça, minha força é perfeita na fraqueza”.

Segundo James Dunn, todavia, “diversos aspectos do uso de Paulo distinguem-no dos paralelos da época. Charis é regularmente usado no plural, os favores ou benefícios concedidos”. Mas o uso de Paulo é sempre no singular; a singularidade da graça   é característica da teologia de Paulo. Isso é devido em parte à influência do conceito hebraico, visto que no Antigo Testamento, hen, nunca  é usado no plural e hesed só raramente. Sobre isto Dunn comenta;  “Mas  presumivelmente, também reflete o fato de que para Paulo a graça tinha uma única fonte (Deus) e uma única expressão focal (o ato  redentor de Cristo). Toda a graça era a expressão da graça divina; todo ato gracioso só era gracioso á medida que refletia a graça de Deus em Cristo. Toda a graça era a mesma graça”. Em quatro e último lugar, a graça para Paulo gera graça. O recebimento da graça de Deus em Cristo resulta em atos graciosos, como aparece com muita clareza  nas exortações de Paulo a respeito da coleta para a igreja de Jerusalém. A questão aqui é que Paulo  via a ação da graça não apenas no recíproco dar e retribuir  graça; mem mesmo a retribuição de charis no sentido de (agradecimento) completava o círculo paulino da graça. A charis se expressava na forma mais plena no charisma como presente para a comunidade, um benefício  para o bem comum (1 Cor 12:7). O caráter da graça divina em Cristo era plenamente  reconhecido e correspondido quando o recebedor se tornava veículo desta mesma graça  para os outros ( 2 Cor 8: 9). A graça  de Deus assumia expressão característica não só na  salvação  do indivíduo, mas também  a construção da comunidade.

 

 A graça e a justificação pela fé

“Sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus”(Rm 3:24). A idéia da justificação, que aqui transparece no vocábulo  justificados, pode ser entendida conforme o uso clássico da palavra. Segundo Champlim esta palavra teve origem  nos tribunais de Roma. O sentido primitivo desse termo é fazer justo, tanto em sentido relativo ou absoluto. Na obra de Aristóteles  Ética, esta palavra  com freqüência  se reveste do sentido  de tratar de alguém com equitatividade. Tucidides usou este termo no sentido de “tornar justo no juiz de alguém”. Na obra de Ésquilo, Agamenos (390-393) essa palavra tem significado de testar ou provar a natureza de alguma coisa. A palavra  justificar no  Novo Testamento ocorre por trinta e nove vezes, vinte e sete nas cartas de Paulo, que usualmente está vinculada ao sentido do adjetivo paralelo dikaios que significa  reto, justo, e que nas passagens que fala de justificação indica um indivíduo  que possui qualidades, a vista de Deus, ou seja correta posição. É por esta razão que a tradução Inglesa  de Williams diz Right Stading  correta posição na passagem de  (Rm 3:24), em vez da atual tradução  justificados. Pode também  subentender  aquela correta posição que é declarada porque o indivíduo envolvido é realmente justo é reto, (participando), de fato da santidade de Deus. Assim, encontramos os seguintes usos do termo no NT, como afirma Champlim.  Grego bíblico a forma verbal (justificar) pode demonstrar justiça para alguém ver ( Sal 81:3; Is 1:17). Pode significar também vindicar, tratar como justo, mostrar que alguém é justo (Gn 44:16 Lc 7:29). E  nesse  caso, envolve alguém que já é justo, mas que precisa ser vindicado como tal. Também pode  significar  tornar puro, justo, santo de conformidade com o se uso original (Sal 73:13 ; Rm 6:7; 1Tm 3:16). O apóstolo Paulo vai trabalhar com a justificação de uma forma mais minuciosa. Foi graças a ele  que o termo demonstra e denuncia a graça de Deus na pessoa de Cristo. Esta justificação de Deus  na pessoa de Cristo  nos redimiu do poder da trevas: “Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados.”(Col 1:13-14).

Para kümmel, Paulo aborda de forma mais minuciosa essa mensagem da justificação divina nos trechos polêmicos das cartas aos Romanos e Gálatas. O assim chamado tema da carta aos Romanos, o “Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que nele crê, primeiro do Judeu e também do grego, como esta escrito: o justo viverá pela fé” (Rm 1:16) é elaborado de forma fundamental  em Romanos 3.21-30 conforme  Kümmel: “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus, justiça  mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que crêem porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação (que é aceita ) mediante a fé. Desse modo quis Deus  manifestar a sua justiça, por ter Deus perdoado os pecados  anteriormente cometidos no tempo da sua tolerância. Visava com isso a manifestação de sua justiça  no tempo presente, para ele mesmo ser justo e justificador  daquele que tem    em Jesus. “Julgamos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.”

O mesmo também se aplica à justiça de Deus, uma vez que a base para a absolvição no julgamento divino se encontrasse em Cristo. Além disso, assim como toda a teologia  paulina tem como centro a morte de Cristo, o mesmo acontece com o evangelho da justificação pela fé. “Essa revelação da justiça de Deus está relacionada à morte e ressurreição de Cristo de várias maneiras, (Rm 3:21-31), onde mais uma vez a estrutura básica cristológica-escatológica do evangelho de Paulo assume claramente o primeiro plano, é extremamente central e direto na exposição mais detalhada desse tema”. Os versículos Romanos 3.24-26 são especialmente importantes aqui, afirma Ridderbos. O que é de importância particular para nós nesse texto (Rm 3:24-26) é que aqui a justificação é fundamental  na morte de Cristo. Além disso, fala-se da justiça de Deus num sentido diferenciador, Deus fez Cristo um meio de propiciarão em sua morte, e desse modo manifestou a justiça e a graça  através da  morte de Jesus. É acrescentada a isso a idéia de que até este momento, Deus não havia dado castigo pelo pecado dos homens, mas este havia passado de geração há geração a medida que ele reteve o seu julgamento. Agora no tempo presente, Deus abandonou esta atitude de espera  e mostrou  sua justiça  vindicadora na morte de Jesus. Aqui mais uma vez, o apóstolo elucida claramente o significado histórico-redentor da morte de Jesus, no sentido de que o julgamento divino sobre os pecados  do mundo foi por assim dizer  ajuntamento na morte de Cristo e desse  modo, o “escathon” tornou-se presente.

 

A graça na salvação e redenção da humanidade

Como foi citado acima, esta vontade salvífica de Deus é justificada nas traduções de hên (receber favores de Deus) e  charis (agraciados por Deus). Desta forma o Novo Testamento é expressamente soteriológico quando fala de graça salvífica, pois encontra-se muitos textos,  principalmente nos escritos paulino, onde mostra com bastante clareza que à prioridade de Deus na obra da salvação. Por sua livre vontade e graça fomos salvos, pelo livre e espontâneo ato de Deus, isto é, pela graça, privando assim a lei de sua força: pela graça fomos chamados desde os tempos eternos (1 Tm1: 9);  pela graça veio a promessa (Rm 4:16); segundo a riqueza de sua graça possuímos a salvação (Ef 1:7); segundo a eleição da graça somos salvos. A morte de Cristo  nos reconciliou com Deus através da graça salvadora.  A vida e a morte de Jesus Cristo foram fruto da misericórdia divina, o amor que se preocupa com nossa miséria e assume. Mas Deus quis salvar o homem e, com sua misericórdia, realizar também  a justiça que significa  dar a cada um o que lhe pertence. Ao ser humano cabe agir com liberdade em sua libertação. Claro que esta justiça  não comunicativa dos homens para com Deus, mas manifestação do amor e do apreço de Deus para o homem seu objetivo não é salvaguardar apenas a honra de Deus, mas a verdade do ser humano. A salvação da humanidade depende inteiramente da graça divina, (Ef 2;5-7 ; 2 Tm 1:9; Rm 3:24; 8:23; 9:5-6 ;9: 15-16). A doutrina da salvação  é exclusivamente pela graça, é ensinada nas Escrituras com grande clareza. Em Efésios duas vezes se faz a declaração: “pela graça sois salvos”. Paulo atribuía a sua própria salvação à graça; “ Mas, pela graça de Deus, sou o que sou” (I Co. 15:10). O apostolo Paulo atribui a benção da salvação à  “graça que nos foi dada  em Cristo Jesus antes dos tempos eternos”( Ef 1:4).

A salvação é totalmente pela graça. Estas passagens mostram que a salvação não é  em parte por obras, em parte pela graça. A graça e as obras  estão em extremos tão opostos que, quando se afirma que é pela graça, está  se afirmando que não pode ser pelas obras; não é pelas obras, do contrário, a graça não é graça, assim afirma Jonh L.Gagg.  “A salvação  não é pela obras, também não o é pela lei. Graça é o favor imerecido. Em Romanos 4:4, Paulo distingue entre o Dom da graça e o salário de dívida. Quando algum bem é conferido por causa de obrigação não é pela graça. Tudo quanto possa ser reivindicado com débito de justiça não pode ser considerado como favor imerecido. A justiça retribui a cada homem de acordo  com sua obras. Portanto se salvação, fosse pela obras, não poderia ser pela graça. Paulo tratou do assunto com muita clareza, “Ora, ao que trabalha, o salário  não é considerado favor e sim como dívida ...”, “E se é pela graça  jà não é pelas  obras; contrário, a graça já não e  graça”( Rm 4:4 e 11:6)”.

Na carta do apóstolo Paulo aos Efésios,  Paulo relata  a condição do ser humano por natureza, (...filhos da ira...); (...mortos nos vossos delitos e pecado..); (...não tendo esperança e sem Deus no mundo). O apóstolo Paulo também atribui o livramento desta situação desgraçada e miserável e sem esperança a graça de Deus, que é rico em misericórdia, “Mas Deus, sendo rico  em misericórdia , por causa do grande amor com que amou, estando nós mortos em delitos, nos deu vida juntamente com Cristo ( Ef 2:1). Sem  a morte de Jesus Cristo a nossa salvação era impossível, e não tínhamos  qualquer direito sobre Deus para reivindicar o Dom da graça de seu Filho Jesus Cristo. Ele  nos foi dado graciosamente, por causa do grande amor que Deus no amou, e assim como ele próprio  nos foi dado graciosamente  todas as benção  que recebemos através de Jesus Cristo, são igualmente consideradas pela graça. Se alguém pensa que Cristo  tinha a obrigação  de morrer por nós, ou que Deus estava obrigado a dar  o Seu Filho fazer tal sacrifício necessário pelo pecado, tal pessoa  se engana totalmente, num ponto que é vital  importância  para a salvação  de sua alma. A doutrina  de que a salvação é pela  graça não é uma especulação sem proveito, antes, está no âmago da experiência cristã, e a fé que não a reconhece também não recebe a Cristo da maneira como Ele é apresentado no “Evangelho”. Esta é uma questão importantíssima, assim que nossa visão de tal verdade seja clara  e cada faculdade de nossa mente abrace afetuosamente.  

 

 

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